Entre aplausos e elogios, alguém disse, no final da longa e dura ligação de Faro ao Porto, com paragem em Sintra, que este era «um cocktail com um sabor diferente». Às belezas do património, construído e natural, juntou-se, na comemoração do 20.º aniversário da Federação de Motociclismo de Portugal, a capacidade de superação dos condutores e penduras das 1200 motos que cumpriram um percurso que, para celebrar condignamente a efeméride, passou à porta de vários dos motoclubes fundadores da FMP.
Em ano de todos os recordes, com a maior caravana de sempre englobando quase 1300 motociclistas, muitos apontavam o dedo a um trajecto que, inicialmente, era visto como fácil e pouco interessante, longe do perfil tradicional da maior aventura mototurística do Mundo... Mas, no final, o 12.º Portugal de Lés-a-Lés/Moviflor conseguiu superar as expectativas, assumindo como marco de relevo no património mototurístico nacional.
Um passeio aventureiro – que é disso que se trata e não de uma corrida ou competição de regularidade... – que assume, também, importante papel na divulgação histórica e paisagística do nosso País. Mostrando monumentos e paisagens, gentes e tradições, ao longo de mais de mil quilómetros de entusiasmo e espanto, de diversão e descoberta, de simpatia e solidariedade.
Da Vila-Adentro à frescura dos laranjais
Ingredientes que ajudaram a cumprir o desafio lançado pela Comissão de Mototurismo que anunciou a mais exigente travessia da história do evento, gizando percurso bem diferente do habitual, assinalando os 20 anos da Federação de Motociclismo de Portugal com visita a alguns dos alicerces da história do motociclismo nacional.
A começar pelo Moto Clube de Faro, responsável pela organização de uma das maiores concentrações europeias de motos (15 a 18 de Julho 2010) à porta de quem os participantes do Lés-a-Lés passaram logo no prólogo. À porta, ou melhor às três portas: a da sede actual, a da primeira sede e a da futura, imponente edifício que mais parece… um hotel, ponto de passagem (e estadia) de motociclistas em viagem! O trabalho do Moto Clube de Faro foi relembrado na passagem pelo Monumento ao Motociclista e no palco da concentração
Tributo a um dos fundadores da FMP naquela que foi a quarta visita à Ossónoba do tempo dos fenícios, mas apenas a primeira vez que a aventura partiu da capital algarvia. E que partida...
Um arranque em grande, com majestoso espaço na praça de S. Francisco, onde as verificações técnicas e documentais oferecem enorme aparato. As mudanças operadas pela organização no alinhamento desta imprescindível etapa do Lés-a-Lés e a pontualidade dos participantes na chegada ao parque fechado foi fundamental para o bom desenrolar de todo o processo. Um reboliço que se prolongou ao longo de todo o dia, com grande movimento da colorida caravana que, entre as 11 e as 18 horas do dia do feriado do Corpo de Deus, se foi fazendo à estrada para o prólogo. Foram mais de 7 horas a dar partidas de forma ininterrupta com os participantes a usufruírem das primeiras sombras do dia, simpatia das meninas que, com os guarda-sóis da Moviflor, conferiam um aspecto bem diferente ao palanque da partida.
Depois, ao longo dos 48 quilómetros do prólogo, tempo para gozar, descontraidamente, mais algumas sombras e apreciar, tranquilamente, a monumentalidade de Vila-Adentro, o centro histórico da cidade, com destaque para o Museu Municipal e a Sé Catedral. Mas também o pitoresco de Santa Bárbara de Nexe, com os seus amplos pomares, ou a riqueza arquitectónica de Estoi, antes de passagem pelas importantes ruínas romanas de Milreu. Aí o primeiro furo na tarjeta que atesta o cumprimento de todo o percurso foi obra e graça dos elementos do Motoclube Moto Malta, antes do regresso ao centro operacional, onde o jantar contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Faro, Macário Correia, em amena cavaqueira com a comitiva federativa encabeçada pelo presidente da Direcção, Jorge Viegas.
Do Parque Natural da Ria Formosa ao de Sintra-Cascais
Simpático aperitivo para um traçado que se adivinhava durinho mas de grande beleza na ligação até Sintra, com paragem para reabastecimento dos aventureiros em Cuba e Benavente. Do Parque Natural da Ria Formosa ao de Sintra-Cascais, nada menos de 468 quilómetros, com madrugadora partida logo pelas seis da manhã! Pela frente 12 horas de animação, iniciadas com entusiasmantes estradas no concelho de Loulé, incluindo a Estrada Património N2, bem à medida dos desejos mototurísticos, com bom piso, curvas (muitas...) bem desenhadas e bermas ajardinadas com cedros, sobreiros e medronheiros.
Bem diferentes, os troços de terra na mesma serra algarvia por onde andou, há dias, o Rali de Portugal, com as marcas deixadas pelos potentes World Rally Cars a levantar as primeiras dificuldades aos motociclistas menos experientes, logo confrontados com a primeira das três travessias de cursos de água. Quase seca, a ribeira de Vasconcilhos – no mesmo local por onde passou o Rali Lisboa-Dakar em 2006 – não levantou problemas de maior, com o nível de exigência a subir no já emblemático Vascão e, mais tarde, na passagem pelo rio Almansor, onde os elementos do motoclube local montaram o quinto posto de controlo.
E refira-se que os controladores de ambos estes rios estiveram acima das melhores expectativas. Imaginativos, os homens do MC Albufeira montaram no Vascão a "Auto-lavagem Lontra Azul" onde tiravam o pó às motos com a própria água do Vascão graças a engenhosa mangueira. Entusiastas, os elementos do Almansor MC ajudaram uma a uma todas as motos a passar o rio mais profundo e com piso de areão. Um esforço ultrapassado com muita alegria e dinâmica!
Notas iniciais de um road-book com a primeira grande paragem anunciada para Cuba, terra que a História diz ser de Cristóvão Colombo, contrariando a tese italiana do descobridor ter nascido em Génova. Mas se o local do nascimento do descobridor da América pode estar envolta em celeuma, poucas dúvidas restam quanto à simpatia e tradicional bom acolhimento dos alentejanos, com almoço em agradável sombra. Que tão bem soube aos mototuristas num dia com temperaturas aceitáveis, bem longe do calor abrasador que marcou a edição de 2009 do Lés-a-Lés/Moviflor. Uma simpatia de S. Pedro, um dos santos mais invocados pela comunidade motociclística – quase tanto como S. Rafael, o seu padroeiro – que atendeu as preces dos aventureiros, numa passagem mais amena na obrigatória travessia alentejana por Vila Alva e o interessante Museu de Arte Sacra e Arqueologia, Vila Ruiva e a ponte romana, Alvito e o paço fortificado, Viana do Alentejo e o emblemático castelo-igreja ou Alcáçovas e o palacete onde, em 1479, foi assinado, entre D. Afonso V e os reis de Castela, o primeiro dos três tratados que viria a dividir o Mundo entre Portugal e Espanha. História medieval perfeitamente enquadrada com a rigorosa caracterização dos elementos do Moto Clube do Porto que, vestidos a rigor com trajes da época e de alicate em punho, receberam os aventureiros junto à estátua cubense do navegador quinhentista e também na obra de engenharia romana sobre a ribeira de Odivelas.
Já no Ribatejo, mais fresco, passagem pelos arrozais junto ao Almansor, atravessando herdades rumo a Santo Estêvão onde depois da visita à praça de toiros, com direito a lide montada, houve lugar a lanche. Terra de nome enraizado no Lés-a-Lés – por força do animado grupo de motociclistas nas pequenas cinquentinhas que desde 2002 marcam presença – St.º Estêvão surpreendeu a comitiva com repasto de eleição, onde nem faltaram deliciosos bolos caseiros, saídos dos fornos das mulheres da terra, em apoio ao Almansor Moto Clube que ofereciam também a sexta marca de bom comportamento mototurístico com o respectivo furo na tarjeta.
Marcando a passagem do Alentejo para o litoral, Benavente ofereceu uma vista diferente da lezíria ribatejana e de uma das mais importantes áreas húmidas da Europa, com excepcional passagem pela ponte pedonal sobre o Sorraia. Passagem vedada a veículos motorizados, com direito a excepcional utilização pelos participantes do 12.º Portugal de Lés-a-Lés/Moviflor, excepção feita aos encorpados side-cars que, devido a largura dos Ural tiveram mesmo que atravessar o rio pela ponte tradicional...
Paisagem de eleição antes do rebuscado percurso rumo à Sintra, tentando limitar a confusão das travessias urbanas, como a de Vila Franca de Xira ou Rio de Mouro, com direito a paragem na primeira loja da Moviflor onde as simpáticas colaboradoras ofereciam aos visitantes mais um furinho na tarjeta.
Um mal necessário para atingir o fim desejado, com semáforos, trânsito e uma paisagem urbana envolvendo um Lés-a-Lés fora do seu habitat natural. Um esforço pedido aos aventureiros, compensados, logo de seguida, com pormenores verdejantes, colinas com moinhos, campos e papoilas, muros rústicos, aquedutos e... subidas que de tão íngremes deixaram as cinquentinhas a fumegar ainda mais! Um esforço justificado pelo espírito da aventura e pelo nono controlo, o último do dia, com recepção da espectacular Corte Real mesma à porta do Palácio Nacional da Pena.
A serra de Sintra, de imagem mística ampliada pelo nevoeiro do fim de tarde, ofereceu as últimas curvinhas do dia, em deslumbrante ambiente propício a sonhos e lendas de princesas e cavaleiros, de lutas heróicas e amores proibidos. A densa vegetação, por vezes luxuriante, foi apreciado contraponto ao calor e secura de um Alentejo onde a marca do estio se vai já fazendo notar, num dia que levou a caravana entre as sedes de dois dos motoclubes fundadores da Federação de Motociclismo de Portugal. E que, no dia seguinte, haveria de terminar na cidade de outro. Mas até lá...
Um final de etapa marcado pela excepcional simpatia e disponibilidade dos membros do Moto Clube de Sintra que encaminharam a gigantesca caravana no Monte da Lua, mantendo a nota de excelência iniciada pelo Moto Clube de Faro no apoio à montagem de toda a partida do 12.º Portugal de Lés-a-Lés/Moviflor.
14 horas de curvas de Sintra ao Porto
A promessa era simples! A etapa entre Sintra e o Porto, com passagem em Rio Maior e Lousã, ficaria na história, ao lado de jornadas marcantes como a que ligou Lagos a Góis, em 2004, ou Arcos de Valdevez e Marvão, em 2007. Anunciada dureza facilmente perceptível com alguns números! Com total de 533 quilómetros, as 14 horas de curvas de Sintra ao Porto, davam direito a 11 horas e 40 minutos de condução (a que se somou o tempo para almoço e mais algumas pequenas paragens nos 11 controlos secretos). A título de comparação, um ciclista profissional demora menos de nove horas para cumprir a tradicional "Porto-Lisboa" e a soma das horas de condução dos dois dias do 12.º Portugal de Lés-a-Lés/Moviflor (22 h. 30) possibilitariam a ligação de Portugal à Dinamarca sempre dentro dos limites do Código de Estrada...
Dados estatísticos que fervilhavam na mente dos participantes, na madrugadora despedida a Sintra, com direito a apreciar o mar logo pela manhã, num dia em que, apesar de um percurso relativamente perto do Atlântico, só do topo das serras de podia ver, ao longe, a grande imensidão do oceano. Um paragem agraciada com um pequeno-almoço de fabulosas vistas, incluindo a pitoresca paisagem de Azenhas do Mar, e onde os Motards do Ocidente, aproveitando o facto de, pela primeira vez, estarem a jogar em casa, montaram novo controlo horário (o 11.º). Uma quintinha saloia que até tinha patos, coelhos, cabritos e um sereno burrito com a sua carroça! Simpática e bem divertida forma de começar o dia depois de na véspera terem brilhado no Palácio da Pena, pavoneando-se com bonitas roupagens do século XVIII.
A passagem pela região saloia, até ao imponente Palácio Nacional de Mafra – com o gigantismo da obra mandada construir por D. João V graças ao ouro vindo do Brasil a ajudar a abrir os olhos aos motociclistas... – foi aperitivo para o dia de todas as serras, no ano de estreia do percurso na região Oeste. A começar pela de Montejunto, onde os históricos moinhos resistem numa paisagem cada vez mais marcada pelas pás das eólicas, os moinhos dos tempos modernos... No ponto mais alto da Estremadura, tempo para aprender algo mais sobre a história de Portugal, bem próximo do local onde, ainda há pouco mais de um século, era guardado o gelo que depois de enviado, de burro e barco, para Lisboa, permitia fazer os sorvetes que tanto furor faziam entre as classes mais abastadas do final do século XIX. Facto resultante de ser o único local onde, graças aos 666 metros de altitude, existia neve na região e onde os elementos do Moto Clube do Porto, disfarçados de saloios, montaram controlo de passagem nas ruínas do Convento da Senhora das Neves.
Curiosidade cujo espanto só foi superado com a visita às Marinhas de Sal, em Rio Maior, onde é extraído sal marinho... a 32 quilómetros do mar! Uma raridade natural – existem mais duas marinhas de sal-gema no Mundo! – que prendeu a atenção dos motociclistas, incluindo a comitiva federativa, liderada pelo presidente da Direcção, Jorge Viegas, em ano de estreia no Portugal de Lés-a-Lés. Capricho da natureza alimentado por uma corrente subterrânea de água sete vezes mais salgada que a do Oceano Atlântico, e onde os métodos de exploração se mantém quase semelhantes aos de há oito séculos, altura em que surge o primeiro registo histórico (1177) referente às salinas. Paragem aproveitada para mais uma picadela na tarjeta, perpetrada pelos homens do Moto Clube de Rio Maior.
Intervalo cultural que serviu de preparação (psicológica...) para a subida a mais uma serra, com visita ao Parque Natural das Serras de Aires e Candeeiros, com vistas deslumbrantes nos estradões de terra batida existentes na cumeada desta e onde os participantes puderam apreciar a riqueza da vegetação.
Passagem por Fátima, a primeira do Lés-a-Lés junto ao recinto que acolheu a celebração do Dia do Motociclista em 2000 e 2002, Ourém e Figueiró dos Vinhos, antes de encontrar o controlo instalado pelos monges do Moto Clube de Leiria na antiga ponte que atravessa a ribeira de Alge. Castanheira de Pêra com a sua surpreendente praia de ondas, antecedeu a travessia da serra da Lousã, com visita ao castelo junto ao rio Arouce onde, diz a lenda, estaria escondido o enorme tesouro pelo rei islâmico Arunce, pai da princesa Peralta, e onde a maior riqueza encontrada foi... mas um buraco na tarjeta (e vão 16...) a cargo dos dinâmicos elementos do Montanha Clube.
Aperitivo histórico para o excelente almoço preparado pelo mesmo motoclube e pela Câmara Municipal de Lousã, seguido por digestivo... histórico! Afinal, poucos quilómetros à frente, passagem pelo local onde se deu a batalha da Foz do Arouce onde, há 200 anos, as tropas napoleónicas em fuga, rechaçadas nas Linhas de Torres, se auto-aniquilaram, lutando umas contra as outras depois do comandante Ney, desobedecendo a ordens superiores, ter deixado vários batalhões na margem errada do Ceira. Que, na madrugada seguinte, debaixo de intenso nevoeiro, foram confundidas pelos seus compatriotas franceses como sendo inimigos...
Nota história a que se seguiu uma curiosidade natural, a Livraria do Mondego, formação rochosa constituída por quartzitos e que dá aspecto de gigantesca estante de livros, mesmo na margem do Mondego, a caminho de Mortágua. Ambiente relaxante, com boas curvas, na inédita travessia do maior rio integralmente português, na barragem de Mondelim onde estavam emboscados, de alicate em punho, os elementos dos Motociclistas sem Fronteiras.
Com o cansaço a acumular-se, a visão da serra do Caramulo lembrava o exigente trajecto ainda por cumprir até ao Porto, mas nem o pensamento relaxante causado pela passagem nas Temas de S. Pedro do Sul demoveu os resistentes de atacar a subida para a serra da Freita, passando pela Frecha da Mizarela, a queda de água mais alta de Portugal Continental, atirando o rio Caima de mais de 70 metros de altura. A passagem pela Freita seria, aliás, um dos pontos mais votados por muitos mototuristas na hora de escolher o ponto mais marcante do percurso. Pela paisagem, pelas deliciosas estradinhas e pelas aldeias de Vilarinho e Manhouce, onde as populações saíram à rua para acolher os heróis resistentes e onde os Moto Galos de Barcelos serviram fausto lanche e trataram do antepenúltimo furo da já esburacada tarjeta.
Fim das serras, que não das curvas, contabilizando muito mais que as 365 que dizem ter a estrada entre Arouca e Castelo de Paiva, onde estava o penúltimo controlo a cargo do moto clube local. Prémio merecido depois de fazer uma curva por cada dia do ano...
Muitas curvas também na N108, conhecida como a Estrada de Entre-os-Rios, ligação até ao Porto pela margem norte do Douro. E que levaria a caravana até à Ribeira, com passagem ao lado da barragem de Crestuma-Lever (onde estava escondido o 20º e último controlo secreto, em Broalhos), pela Foz do Sousa e ou pela casa onde foi assinada a Convenção de Gramido, que, em 1847, pôs fim à guerra civil entre os irmãos D. Pedro e D. Miguel pelo trono de Portugal.
Histórica também a entrada no Porto, com monumental entrada pela Ribeira, passando por alguns dos locais emblemáticos da cidade, incluindo a Torre dos Clérigos, verdadeiro ex-libris, rumo à Avenida dos Aliados, palco das grandes festas populares da cidade e onde, dias antes, havia estado o Papa Bento XVI.
Agora a festa foi outra, protagonizada pelos mototuristas que, ao longo de dois intensíssimos dias, apreciaram um Portugal diferente, conhecendo mais um pouco da paisagem e da História. Motivos mais do que suficientes para justificar os sorrisos com que os extenuados aventureiros subiam ao palanque na Avenida dos Aliados, numa interminável e divertida chegada que durou das 20 horas até à uma da madrugada. E onde, nos primeiros comentários, em mini-entrevistas a todas as equipas, deu para perceber a satisfação de terminar o 12.º Portugal de Lés-a-Lés/Moviflor. E deu para perceber que todos esperam já pela edição de 2011...
Entretanto a FMP tem o prazer de informar que a Digital Mais TV já disponibiliza online a reportagem sobre o primeiro dia do 12º Portugal de Lés-a-Lés Moviflor, decorrido em Faro.
Para ver, basta consultar o link: